Sobre

Panorama em tempos de transe

O Panorama Internacional Coisa de Cinema é um festival que, desde a sua origem, esteve fortemente ligado às salas de cinema, especialmente aos cinemas de rua, fora do shopping. Espaços preciosos e cada vez mais raros.
A Sala Walter da Silveira, única sala de cinema pública de Salvador, foi ocupada pelo Panorama desde a sua primeira edição, em 2002. 
Em 2009, o festival passou a acontecer também no Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha, que reúne 4 salas excelentes em termos de som e imagem. Foi ali, no coração da cidade do Salvador, na encruzilhada que reúne Castro Alves, Glauber Rocha e Gregório de Mattos, que assistimos, a cada nova edição do Panorama, a reunião de milhares de pessoas para celebrar o cinema.
Em 2014, com a inauguração do Cine Theatro Cachoeirano, o Panorama passou a promover uma programação de qualidade também em Cachoeira. Assim, ampliou ainda mais as possibilidades de acesso aos filmes e ocupou mais um espaço de cinema de rua que florescia no nosso estado.
Com um público maior a cada ano, o Panorama é a certeza de que, durante 8 dias, o cinema ocupa um lugar central na vida das pessoas, além de contribuir fortemente com a visitação ao centro antigo de duas cidades históricas.
Mas, veio a pandemia e com ela novos e grandes desafios. Foi preciso nos reinventarmos. Se a falta do abraço, da experiência compartilhada na sala escura, dos encontros e trocas antes e depois das sessões, é imensa, por outro lado, graças à tecnologia, é possível dar continuidade a um trabalho de dezesseis anos de promoção e divulgação do cinema brasileiro e internacional, independentes. Assim, seguiremos em defesa da arte e da educação, sem as quais é impossível pensar o desenvolvimento e aprimoramento da sociedade.
De maneira inédita, toda a programação do festival será inteiramente gratuita. Além disso, nos anima saber que os filmes e debates do Panorama poderão ser acessados em qualquer parte do território nacional desde que a pessoa tenha acesso a um computador ou celular, e a internet. Assim, saudamos o público baiano e também o público de outros estados que, pela primeira vez, irão acompanhar o festival.
Em 8 dias de programação, serão exibidos quase oitenta obras, entre longas e curtas. São filmes que falam de realidades próximas e distantes, que abordam os desafios e os sonhos de seus personagens, que afirmam o cinema como potência de pensamento, espaço privilegiado de reflexão e memória. 
Nesse edição, evocamos a força e beleza de uma mulher extraordinária. Conceição Senna, atriz, diretora, artista, que homenageamos com todo o nosso carinho. Conceição é daquelas mulheres que abriram caminhos, criaram estrada, facilitaram o andar de tantos outros homens e mulheres que, como ela, cultivam a liberdade de ser e de criar.
Realizaremos uma mostra com quatro filmes de Fernando Coni Campos, um dos cineastas da terra mais inventivos e prolíferos. Inauguraremos também uma nova programação, o Panorama Convida, onde diretores de obras premiadas em edições passadas do Panorama convidam outros cineastas e suas obras. A ideia é tanto relembrar a história anterior do próprio Panorama quanto criar oportunidades de diálogo entre obras e seus criadores.
Vale ressaltar a grande presença de filmes baianos no festival. Ao todo, são 10 longas e 23 curtas produzidos na Bahia, divididos entre competitivas baiana e nacional. Não é pouca coisa! É preciso celebrar a explosão de criatividade e diversidade no nosso estado, e que ela reforce a necessidade de políticas públicas regulares de fomento.
Como em todos os anos, trazemos também uma seleção de 6 longas e 12 curtas internacionais. São filmes que nos falam de lugares distantes, diversos, mas que se revelam muito próximos em termos de dramas e desejos humanos.
Desejamos que todos os nossos amigos e espectadores estejam bem, com saúde, tomando os cuidados que o momento exige. Desejamos que a gente resista dentro de um grande espírito coletivo, no amor ao próximo, na solidariedade, no respeito ao outro e ao meio ambiente. Desejamos que o reencontro seja possível em breve, que o prazer da emoção compartilhada da sala escura não se perca após tanto tempo com os cinemas fechados. Enquanto isso, lutaremos com as armas que temos. Viva o cinema, viva a arte!
A décima sexta edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema está sendo realizada graças ao apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

Cláudio Marques e Marília Hughes

Conceição Senna, Brihante!

Eu conversei com Conceição Senna algumas vezes. Não foram muitas e eu lamento por isso. Sempre que nos encontramos, a conversa corria livremente. Ao nos despedirmos, a minha sensação era a de ter uma amiga. Eu a escutava. Escutava suas histórias, suas impressões, sua opiniões apaixonadas. Conceição ria e falava fartamente. Sempre se revelou carinhosa pelas pessoas, pela vida.
Conceição nasceu em Valente, sertão baiano, e ela se sentia valente, mesmo. Certa vez, ela falou um pouco sobre sua infância marcada pelo pós-guerra de Canudos. Uma região fantasmagórica e que a chuva, quando caía, revelava as ossadas dos combatentes. No livro autobiográfico “A Menina, a guerra e as almas” Conceição comenta que as crianças brincavam com a munição encontrada no chão. Levavam para casa as balas, que serviam para segurar as portas.
Conceição cresceu em região dominada pelo catolicismo místico e ela, juntos aos demais, empreendiam longas caminhadas e sofriam com os sacrifícios físicos impostos pela igreja.
Também no seu livro, Conceição fala do maravilhamento de ter ido ao cinema pela primeira vez: “A luz apagou, ficou só um feixe luminoso passando sobre nossas cabeças, olhei para trás, o feixe saía da máquina. E vi o primeiro filme da minha vida. No começo fiquei só abestalhada, devia estar com o queixo batendo no peito. Fui me acostumando e vi que era só ver e ouvir e se entendia a história”.
Conceição veio morar e estudar em Salvador e ficou deslumbrada com a “civilização”. Aqui, tudo parecia se arranjar melhor. Ela se apaixonou pelo cinema e pelo teatro, queria ser atriz. Aí, teve que ser valente, mesmo, para enfrentar a misoginia de uma sociedade que apagava constantemente as mulheres. Uma gente que ainda não estava acostumada com Conceição e Helena Ignez, entre outras.
Conceição encampou batalhas e abriu caminhos. Ela foi uma artista generosa, amorosa, em um tempo em que tudo se mostrava mais complicado de realizar. Graças a mulheres como Conceição é que conseguimos avançar, nos tornar um pouco melhores, com mais esperança na criação de uma sociedade mais bela e equilibrada.
Conceição conheceu Orlando e engatou um casamento para todo o sempre. Difícil falar de um sem mencionar o outro. Ela, mais corporal e puro coração. Ele, com voz imponente num tom sempre correto e cerebral. Eu acho (apenas acho) que Conceição desconcertava a rigidez de Orlando. Ela o fazia sorrir.
Conceição e Orlando moraram em Salvador, Rio e em outras cidades. Certa vez, Conceição e Orlando me falaram que havia imensa lacuna cultural por eu não conhecer Havana e Marrakesch. Fomos, Marília, Tião (nosso filho) e eu. Não parei de pensar neles um segundo sequer.
Conceição brilhou em mais de 30 espetáculos teatrais, 20 longas na telona e foi apresentadora do “Ventana al Sur”, em Cuba. Foi popular lá na ilha! Talvez, mais reconhecida do que no Brasil. Ela dirigiu longas, escreveu livros… teve uma vida plena, intensa…. brilhante!

Cláudio Marques